Pular para o conteúdo principal

A Tecnologia e o fim das Revoluções

Meu caro jovem utilizador de redes sociais e mais novo “ativista digital” da “praça”, se você é daqueles que acredita que haverá uma revolução, e que esta revolução será liderada pela tecnologia e disseminada através dos meios digitais, esqueça. Tal idéia é totalmente contraditória.

Não haverá revolução e a tecnologia não levará a nenhuma revolução.
Mas por que eu estou dizendo isso?
A essência de uma revolução é a “centralização do poder”. Um tal de Marx já falou isso faz muito tempo, e fez questão de nos lembrar disso ao longo desses anos todos. Não existe processo mais centralizador do que uma revolução. Todas as revoluções ocorridas na história geraram uma centralização do poder, inclusive a Revolução Americana, considerada a maior das “revoluções liberais” da história humana.
Longe de caminharmos para uma revolução. Estamos isso sim, à beira de uma “não-revolução”.
O que estamos presenciando atualmente é um enorme processo de desintegração, muito parecido com o que aconteceu com o Império Romano. Nenhuma revolução derrubou Roma, o império simplesmente se desintegrou. O mundo medieval foi um período de enorme descentralização.
Ao longo do século XVII, aconteceram várias tentativas de iniciar revoluções. A Revolução Puritana na Inglaterra foi uma delas. Foi uma revolta contra o poder centralizado do rei, mas foi uma revolta feita em nome da centralização do poder no Parlamento.  Essa revolução simplesmente gerou um ditador militar, Oliver Cromwell, entre 1649 a 1659. Cromwell foi substituído por um novo rei em 1660, mas o parlamento continuou a centralizar o seu poder.  A Revolução Gloriosa de 1688 e 1689 retirou muito do poder do rei, mas não reduziu o poder do governo; ela simplesmente transferiu o poder para o Parlamento.
Quando existe uma intensa descentralização surge não uma revolução, mas sim uma “secessão”. E não me refiro a uma secessão ao estilo daquela que ocorreu no sul dos EUA no século XIX que era apenas uma maneira de centralizar o poder no sul do país.  Aquilo não passou de um grupo de revolucionários armados que procuravam centralizar o poder na região que queriam controlar.  Como eles próprios argumentavam, era uma repetição da Revolução Americana. Não havia nenhuma intenção por parte de Jefferson Davis e seus confederados em separar, a intenção dos revoltosos sulistas era a de centralizar o poder em sua região.
Uma revolução significa uma centralização do Poder.  Se você não entender isso, caro amigo, você não conseguirá entender o que está ocorrendo hoje com o mundo, e o que vem ocorrendo ao longo dos últimos 500 anos com este mesmo mundo em que vivemos.
Revoluções centralizam o poder.  Se o teu objetivo é combater militarmente um poder centralizado, então teus combatentes têm de centralizar o poder em torno de si próprio.  Ao fazer isso, tudo o que é alcançado é simplesmente uma mudança de lealdade, a qual irá para esse novo grupo de centralizadores formados. Até hoje a maioria das pessoas, inclusive os intelectuais e “pensadores”, ainda não entenderam isso
Prezado amigo, para você fugir do sistema, você não tem de fazer uma revolução; você tem de fazer uma secessão.  Você tem de retirar todo o seu apoio ao sistema vigente.  Você tem de revogar a legitimidade que você conferiu a essas organizações. Você tem de fazer isso, e todas as outras pessoas também têm de fazer isso.  E isso não é uma coisa que pode ser organizada antecipadamente. As pessoas simplesmente aprendem escândalo após escândalo, absurdo burocrático após absurdo burocrático, que o sistema é irreparável. Ele não pode ser reformado.  Ele não pode ser "capturado desde dentro".  Ele tem de deixar de ser financiado. O segredo da liberdade não é a revolução; o segredo da liberdade é a deixar de financiar a ordem centralizada existente. Lembram do filme “Tropa de Elite 2”, quando a personagem principal, o coronel Nascimento, faz suas divagações sobre os sistema?
Vamos continuar: O segredo da estabilidade monetária e de uma moeda forte não é capturar o Banco Central e colocar lá "um dos nossos", ou conceder a ela uma suposta independência.   O segredo é a soberania monetária.  Qualquer um utiliza a moeda que quiser sob uma ordem social de livre mercado.  E isso só se consegue via secessão e não através da centralização revolucionária. Quando os britânicos decidiram que não adotariam o Euro, a idéia presente ali era a de não participar completamente do processo revolucionário que estava se criando com a União Européia (e ainda tem gente espantada com o Brexit).
Querem outro exemplo? O segredo de uma melhor educação não é capturar e controlar o sistema público de ensino. O segredo de uma educação melhor é utilizar a internet (o que reduz sobremaneira os custos da educação), descentralizar todo o processo, e colocar os pais no controle do programa educacional de suas famílias e não atribuir isso ao estado. Portanto, ao ouvir o clichê: “Estamos fazendo uma Revolução na Educação”, fique atento!
O problema é que os conservadores e vários libertários demoram em aprender algumas coisas. Eles ainda insistem em dizer que o melhor a ser feito é capturar e controlar o sistema progressista, pois acreditam que têm um plano melhor para fazê-lo funcionar. Ora bolas, isso foi o que os bolcheviques fizeram com a burocracia do Czar. Isso foi o que os revolucionários franceses fizeram com a burocracia de Luís XVI. Isso foi o que os revolucionários americanos fizeram com a burocracia de George III. Isso é o que o sul dos EUA teria feito caso tivesse vencido. Dizem-se conservadores e não enxergam o que a história lhes mostra.
A tecnologia vai descentralizar o mundo de maneira mais intensa.  A descentralização não vai levar a uma revolução.  A descentralização vai levar à secessão.  Falo de uma secessão ao estilo de Gandhi. Falo em retirar todo o  apoio. Não será necessário pegar em armas contra o estado; você simplesmente tem de se recusar a cooperar com ele.  Agindo assim, você verá como será mais difícil e mais custoso para o estado tentar tiranizar você.
A Iugoslávia não existe mais. A União Soviética não existe mais. Daqui a pouco nem a União Européia existirá mais. Essa é a tendência do futuro.  Os estatistas e os pretensos estatistas irão continuar em busca da “Grande Revolução”.  Assim como Marx, eles vêem como iminente a “Revolução Proletária”.  Só que ela nunca veio e nem virá.  A revolução comunista ocorreu justamente onde, segundo a própria teoria marxista, não deveria ter ocorrido: a área rural do império russo. O proletariado urbano não fez a revolução; quem a fez foi um bando de intelectuais alienados em conjunto com assaltantes de banco. (como se tentou fazer aqui no Brasil).
O que estamos testemunhando é o fim do apoio aos regimes centrais.  As revoluções no mundo árabe não descentralizam nada.  Elas apenas reorganizaram a centralização nas mãos de outro grupo de tiranos.  É bom ver os antigos tiranos sendo humilhados e derrubados, pelo menos de longe. Mas isso não muda nada. O Egito é exatamente o mesmo que era sob o jugo de Mubarak.  É uma ditadura militar. A revolução não trouxe nada de positivo.
Revolucionários são centralizadores.  Essa centralização pode ser explícita ou não, mas sempre há uma agenda centralizadora em todos os movimentos revolucionários.   Todo revolucionário sempre acredita que sua revolução será a última.  Todo revolucionário acredita que, quando ele finalmente estiver no controle da cadeia hierárquica de comando, as coisas serão diferentes.  Sim, será diferente: teremos um grupo diferente de espoliadores pilhando a produtividade das vítimas. Meus caros, não acreditem em processos revolucionários como a “salvação” das mazelas da sociedade. Revolução é apenas uma alternância de centralização.
Enquanto conservadores e alguns libertários continuarem sonhando com a captura e o controle de sistemas hierárquicos de poder, nada vai mudar. Nenhum plano centralizador pode surgir de um sistema de comunicação descentralizado.  Vivemos nos “Bálcãs digitais”, e não na Iugoslávia.

O Facebook está descentralizando o mundo.  Ele está "balcanizando" o mundo. E isso vai continuar. Portanto, não ache que você é um “Revolucionário Digital”, tens todo o direito de tentar uma revolução, mas ela não acontecerá através dos meios digitais, não se iluda.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Mises: A ação como ato de liberdade!

Caro amigo, para que você se sinta mais confortável com escreverei a seguir, vou pedir que você se acomode bem antes de dar prosseguimento à leitura desta postagem, caso esteja em um ônibus sentado, coloque seu fone de ouvido para abafar o som externo do ambiente; estando de repouso em casa, sugiro uma xícara saborosa de café ou chá para que se atente ainda mais ao texto; na hipótese de estar no trabalho, sugiro que você faça a leitura somente durante o seu horário de almoço, assim poderá ler com calma e certificará um entendimento claro do que foi lido, pois o que pretendo abordar, requer uma concentração grande no momento da leitura.
Após indicações de amigos e de minha enorme curiosidade em pesquisar e aprender, fui "seduzido" com a ideia de conhecer mais a fundo o trabalho do economista austríaco Ludwig von Mises, para poder entender e analisar com vocês aqui no blog, um pouco do pensamento deste autor que vem sendo "descoberto" mais recentemente no Brasil.
Ludwi…

Mobilidade Urbana, um desafio para os novos gestores!

A mobilidade urbana, isto é, as condições oferecidas pelas cidades para garantir a livre circulação de pessoas entre as suas diferentes áreas, é um dos maiores desafios que os próximos gestores municipais enfrentarão em seus próximos mandatos, não somente em Porto Alegre, mas como na grande parte das cidades brasileiras. O crescente número de veículos individuais promove o inchaço do trânsito, dificultando a locomoção ao longo das áreas das grandes cidades, principalmente nas regiões que concentram a maior parte dos serviços e empregos. Além da qualidade dos serviços de transporte público e concessões públicas, onde discussões inócuas acabam por desviar o foco do real problema que atinge o setor, quase que impossibilitando a movimentação nas grandes cidades.

O Brasil, atualmente, vive um drama a respeito dessa questão. A melhoria da renda da população de classe média e baixa, os incentivos promovidos pelo Governo Federal no meio da década passada para o mercado automobilístico (como a …

Quanto mais governo, menos cidadão!

Eu realmente não gosto de reclamar de governo. Acredito que é uma enorme perda de tempo e desgaste fazer isso.  E também acredito que não se trata de uma atitude inteligente. Estou convencido de que é muito mais proveitoso ignorar toda a bagunça e imoralidade e se concentrar em coisas melhores e mais produtivas. Mas não tenho como ficar quieto quando observo alguns disparates que são cometidos por grupos que foram, durante anos, tutelados pelo Estado e que começam a perceber que o pensamento da maioria da população já não aceita mais isso.  Falo de uma parcela de organizações de sociedade ainda se encontra emocionalmente acorrentada ao Estado, e (a menos que você trabalhe para o governo e tenha um alto salário, ou seja um grande empresário que obtenha subsídios e privilégios protecionistas do governo (em ambos os casos, você se deu bem), creio que é válido demonstrar o quanto é danoso esse relacionamento "promiscuo" com o Estado. Dessa forma, vou escrever sobre algo que não re…