terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O Brasil e a 4ª Revolução Industrial

Eu já escrevi aqui no blog alguns textos falando sobre a 4ª Revolução Industrial (provocado que fui pela incessante busca de respostas por parte de minha parceira Mauren Mello), abordei aspectos das primeiras revoluções industriais, suas características e uma possibilidade de consequências deste processo no desenvolvimento da humanidade. Assistindo uma matéria no "Fantástico" no último domingo sobre como o Japão vem adotando robôs na área de serviços (restaurantes e hotelaria), resolvi escrever um texto falando  um pouco sobre esse processo aqui no Brasil, como o País está preparado (?) para se inserir nesse processo e as particularidades que este fenômeno humano interfere no cotidiano de nosso País. 
O Brasil se dispôs a construir um sistema de ciência e tecnologia que se caracteriza pela quase excelência, do ponto de vista dos padrões conhecidos nos países em desenvolvimento,  onde o País se encontra no momento, inclusive não ficando a dever, em certas áreas de pesquisa, quase nada aos países desenvolvidos (que possuem muito mais cultura e investimentos do que os Países com as características do nosso País).
A questão é que o desenvolvimento do Brasil não é nada bom no que se refere à transposição das descobertas, inovações e resultados do saber científico para o campo da pesquisa aplicada e no terreno prático de suas derivações tecnológicas e industriais mais imediatas ou seja, o disparate existente entre aquilo que é pesquisado, estudado e descoberto, está longe de ser colocado em prática e fazendo parte do cotidiano da sociedade brasileira.
Essas deficiências resultam de uma insipiente cultura patentária e de um preconceito ainda enorme na academia (graças ao bom Deus, cada vez menos influente) contra aplicações mais práticas da pesquisa científica. É impressionante como alguns acadêmicos tem verdadeiro "pavor" que determinadas pesquisas sejam aplicadas no dia a dia. Mesmo assim, é possível dizer que os resultados já alcançados nessa área, inclusive a partir da “marcha forçada” em direção dos últimos gargalos nos ramos intermediários e de insumos, bem como os investimentos estatais em alguns setores de ponta, oportunamente revertidos ao setor privado, permitem classificar o Brasil como uma economia industrializada e plenamente inserida na terceira revolução industrial. (vejam aqui o atraso em que nos encontramos)
Mas, esse “acabamento” relativamente satisfatório do processo industrializador no Brasil está sendo ameaçado, justamente, pelos novos processos, métodos e materiais inéditos que estão emergindo como resultado da revolução da nanociência e da nanotecnologia aplicadas ao complexo e diversificado setor industrial ou manufatureiro. Como nossa inserção na 3ª Revolução Industrial ainda é recente e não tão solidificada como podemos pensar.
De fato, a nanociência permite, impulsiona e praticamente obriga à geração de conhecimentos avançados, que se revelam convergentes em vários setores da arte e do engenho humanos, em biotecnologia, nos novos materiais, na instrumentação técnica, assim como nas próprias formas de organização social da produção e do trabalho humano. A nanotecnologia, por sua vez, leva, quase que naturalmente, ao surgimento de novos ramos industriais e de novos mercados que, ao configurarem um novo padrão, superior, de produção fabril e manufatureira, não tardarão a se impor, doravante, como a mais nova fronteira da civilização industrial, um paradigma incontornável de concepção, desenho e fabricação de novos produtos e insumos que modificarão, de forma substancial e irremediavelmente, as características da sociedade atual, incluindo ai, aquilo que foi objeto da matéria citada anteriormente no texto.
As tendências que já apontam para uma situação de ruptura tecnológica e de mudança profunda na configuração de procedimentos industriais afetarão a produtividade relativa das indústrias, o jogo das vantagens comparativas entre os países, bem como a própria composição do comércio internacional, condenando os países que não se alinharem aos novos padrões a perdas gradativas de competitividade ou até mesmo à esclerose precoce de parques industriais inteiros. Isso se torna extremamente preocupante para nós, brasileiros, quando observamos nosso comportamento social em relação à essas transformações (nossas leis trabalhistas ultrapassadas, nosso comportamento paternalista em relação ao trabalho e o nosso "capitalismo estatal" (uma aberração econômica, onde os empresários buscam no governo, uma "segurança" para poder tocar seus negócios)
Não é nenhum absurdo em dizer que: o lado científico e o lado prático da nanotecnologia vieram para alterar definitivamente velhos padrões industriais e correntes tradicionais de comércio internacional. Quero deixar uma coisa muito clara aqui: Aqueles países que não se incorporarem ou não se adaptarem ao novo paradigma correm o sério risco de ficarem alijados dessa nova faceta da civilização industrial emergente. E isso pode significar um "abismo" social, econômico e cultural sem precedentes na história humana.
Trata-se, portanto, de uma questão de sobrevivência e de preservação dos níveis de bem-estar. É inadmissível que nada seja feito para evitar que o Brasil se torne um País "obsoleto" em relação a essa nova concepção de sociedade.
Não é a toa que os níveis de investimentos financeiros nessa área, tanto em países desenvolvidos (como EUA, Alemanha e Japão), como em países em desenvolvimento (com destaque para a China, Índia e Coréia do Sul), sejam significativos e crescentes, bem mais do que, por exemplo, é investido no Brasil. As perspectivas são excelentes, com as altas expectativas de mercado para produtos da nanotecnologia: cerca de 1 trilhão de dólares nos próximos 10 a 15 anos, com a possibilidade, segundo estimativas, de que o Brasil ocupe talvez 1% deste faturamento. Vejam a diferença.
Existem, claramente, oportunidades abertas ao Brasil, enquanto economia que possui uma competência identificada (ainda que não de forma inteiramente sistemática) numa área que vai modificar de forma irremediável o padrão de desenvolvimento industrial e tecnológico no futuro próximo. 
Vale mencionar, neste particular, a existência de um grupo de trabalho criado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia em 2003, ao qual foi atribuída a responsabilidade da elaboração de Plano Trienal de Nanociência e Nanotecnologia, e de uma comissão responsável pela Organização da Oficina de Nanociência e Tecnologia, na Unicamp. E é esse o ponto que quero tocar novamente, a interferência direta do governo nesse processo, utilizando de seu viés paternalista e corporativista, o governo tende a diminuir a velocidade desses avanços nanotecnológicos no cotidiano da sociedade, não permitindo que os investimentos de capital privado possa aquecer ainda mais essas descobertas.
A gama de atividades classificadas como nanotecnologia cobre áreas de pesquisa tradicionais como a química e a física, chegando às atividades que envolvem ciências dos materiais, biotecnologia, etc., o que demonstra o caráter altamente abrangente da nanociência e da nanotecnologia (N&N). De fato, uma das particularidades da N&N é que ela requer competências científicas com os mais variados horizontes. A N&N sendo uma área altamente interdisciplinar não permite que se tenha uma idéia exata dos aspectos relacionados a cada uma das disciplinas implicadas. 
Como todas as áreas, ela está baseada em noções fundamentais conhecidas dos cientistas e engenheiros. Aliás, a separação entre nanociência e nanotecnologia não tem nenhum significado na prática: é exatamente por esta razão que na maioria do tempo o termo nanotecnologia acaba por recobrir nanociência. Nos países desenvolvidos, esses profissionais estão ligados à grandes laboratórios de pesquisas privados, onde a interferência estatal é nula, permitindo que a concorrência por novas descobertas acelere o processo (não sou ingênuo, nem hipócrita de afirmar que não haja investimento estatal nesses Países, claro que sim, mas que esse investimento não restringe as descobertas obtidas e nem sua aplicabilidade no cotidiano da sociedade)
Tanto isso é verdade que todos os países inovadores estabeleceram e apoiam ativamente programas de nanotecnologia, com orçamentos crescentes e do mesmo nível que a biotecnologia, tecnologias da informação e meio ambiente. Os programas de nanotecnologia analisados estão vinculados às estratégias nacionais de desenvolvimento econômico e de competitividade e todos têm alvos econômicos definidos. 
O crescimento previsto pelos especialistas para os mercados de produtos nanotecnológicos é muito superior ao crescimento de outros mercados dinâmicos, como o de computadores e telefones celulares. A estimativa é que as aplicações de nanotecnologia e as que estarão atingindo os mercados nos próximos anos são evolucionárias, mais do que revolucionárias, estando concentradas nas áreas de determinação de propriedades de materiais, produção química, manufatura de precisão e computação e isso vai impactar diretamente no comportamento das relações de trabalho e nas relações sociais, existirá mais tempo para alguns e menos trabalho para outros milhões.

Não existe, no momento, nenhuma possibilidade razoavelmente definida para o uso de nanomáquinas capazes de fabricar materiais montando-os átomo por átomo. Apesar delas ocuparem espaço na imaginação de escritores, elas não estão nas cogitações de estrategistas das empresas inovadoras a não ser nas formas de síntese química/bioquímica e auto-organização. No entanto, é muito provável o aparecimento, inevitável, de aplicações revolucionárias da nanotecnologia, a médio e longo prazo. Para que não fiquemos atrás nesse processo que, insisto, é irreversível, é necessário que nossa sociedade passe por um urgente processo de transformação cultural e de relações de trabalho. Enquanto o mundo já está em um outro patamar de relações, o Brasil ainda discute "perda de direitos".

2 comentários:

Solange Gomes disse...

Excelente!!! Parabéns!!!!

Thomaz Campos disse...

Grato por acompanhar este Blog, um abraço!

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