terça-feira, 8 de novembro de 2016

Mobilidade Urbana, um desafio para os novos gestores!

A mobilidade urbana, isto é, as condições oferecidas pelas cidades para garantir a livre circulação de pessoas entre as suas diferentes áreas, é um dos maiores desafios que os próximos gestores municipais enfrentarão em seus próximos mandatos, não somente em Porto Alegre, mas como na grande parte das cidades brasileiras. O crescente número de veículos individuais promove o inchaço do trânsito, dificultando a locomoção ao longo das áreas das grandes cidades, principalmente nas regiões que concentram a maior parte dos serviços e empregos. Além da qualidade dos serviços de transporte público e concessões públicas, onde discussões inócuas acabam por desviar o foco do real problema que atinge o setor, quase que impossibilitando a movimentação nas grandes cidades.


O Brasil, atualmente, vive um drama a respeito dessa questão. A melhoria da renda da população de classe média e baixa, os incentivos promovidos pelo Governo Federal no meio da década passada para o mercado automobilístico (como a redução do IPI) e a baixa qualidade do transporte público contribuíram para o aumento do número de carros no trânsito. Com isso, tornaram-se ainda mais constantes os problemas com engarrafamentos, lentidão, estresse e outros, um elemento presente até mesmo em cidades e localidades que não sofriam com essa questão. Causando um alto grau de stress dos motoristas e aumentando a violência no transito, causando mortes por acidentes e até por brigas de trânsito, cada vez mais frequentes.

Outro fator que contribui para aumentar o problema da falta de mobilidade urbana no Brasil é a herança histórica da política rodoviária do país, que gerou um acúmulo nos investimentos para esse tipo de transporte em detrimento de outras formas de locomoção. Com isso, aumentou-se também a presença de veículos pesados, como os caminhões, o que dificulta ainda mais a fluidez do trânsito no Brasil. Esse fenômeno que acontece diretamente nas estradas, acaba interferindo no transito urbano, em função de que esses veículos mais pesados acabam tendo que entrar em vias urbanas em função de não existirem terminais de descarga de mercadoria nas entradas das grandes cidades.
A cidade de Porto Alegre é uma das que sofrem com esse problema. Em média, o porto-alegrense pode passar até 35 dias do ano no trânsito, algo impensável para quem deseja uma melhor qualidade de vida no âmbito das cidades. Aparentemente, as medidas criadas para combater essa questão não foram de grande valia, tais como: A construção de mais ruas, viadutos e avenidas para a locomoção (mesmo com o advento da Copa do Mundo em 2014, onde se prometeu acabar com os transtornos do transito na capital gaúcha) e essas obras, além de inacabadas em função da falta de planejamento adequado, não conseguem dar vasão ao transito, basta uma chuva em Porto Alegre para constatarmos isso, infelizmente. (durante a campanha eleitoral aqui na cidade, por exemplo, os adversários do prefeito eleito ignoraram essa situação, se limitando a "falar" sobre mobilidade urbana apenas na questão da privatização ou não da Carris)
A grande questão é que, segundo especialistas, não há perspectiva de promoção de uma real mobilidade urbana tanto em Porto Alegre, quanto no Brasil se as medidas adotadas privilegiarem o uso do transporte individual. É preciso, pois, melhorar as características do transporte público de massa, com mais ônibus, trens e terminais, com um planejamento mais eficaz para evitar que vários ônibus circulem pelas mesmas vias (como vemos no centro da cidade), causando mais engarrafamentos, principalmente nos horários de maior movimento nas vias urbanas da capital.
Além disso, incentivos a meios de transporte como as bicicletas (a experiência de Curitiba com esse meio de transporte deve ser observada e quem sabe, adequada para a capital gaúcha) além de contribuir para essa questão, ajudam a reduzir a emissão de poluentes na atmosfera e melhorar a qualidade de vida no meio urbano. Por isso, a construção de ciclofaixas ou ciclovias surge como uma saída viável e inteligente, mas insisto, não basta apenas construir as vias para bicicletas, é necessário um trabalho de conscientização, convencimento e respeito no trânsito, para evitar que os ciclistas acabem se tornando vítimas de um transito cada vez mais violento.
Outra solução apontada para combater o inchaço de veículos nas cidades é a adoção do chamado "pedágio urbano", uma medida que é impopular (pois cria mais um imposto) e que gera uma grande polêmica sobre sua real eficácia. Com isso, os carros e motocicletas teriam de pagar taxas para deslocar-se em determinados pontos da cidade, perincipalmente no centro, o que recebe apoio de muitos especialistas, mas também o rechaçamento de outros. 
Se, por um lado, essa medida estimularia o transporte coletivo ao invés do individual; por outro, as críticas colocam que apenas a população de menor renda média é que seria direcionada para esse sentido, o que representaria, em tese, uma exclusão desse grupo ao espaço da cidade. Essa discussão é muito delicada, não pode e nem irei fazer, uma apresentação de proposta aqui sem que aconteça um estudo muito bem detalhado e haja uma discussão grande na sociedade se essa medida seria viável para Porto Alegre (só para deixar claro, todas as idéias e propostas deste texto são de responsabilidade minha, não havendo nenhuma ligação com o que venha a ser realizado pela próxima gestão municipal).
Quero ressaltar também que o modelo histórico de organização do espaço geográfico brasileiro não contribui para uma mudança desse cenário. Afinal, ao longo do século XX, houve uma rápida e mal planejada urbanização do país, que assistiu a um acelerado processo de crescimento das cidades e também de "metropolização", ou seja, a concentração da população nas grandes metrópoles. Se o país tivesse passado por um processo de "Reforma Agrária" adequado, de forma a conter o elevado êxodo rural e, consequentemente, os níveis de urbanização, talvez essas e outras questões urbanas fossem de mais fácil resolução. Mas como isso não aconteceu, temos que lidar com essas consequências até hoje, dificultando todas as medidas que venham a ser pensadas para ao menos diminuir esse grande caos que se tornou a mobilidade urbana das grandes cidades. Como coordenador da ANTUERF (Associação Nacional do Transportador e dos Usuários de Estradas, Rodovias e Ferrovias) me sinto na condição de discutir esse tema, principalmente aqui em Porto Alegre e região metropolitana, onde enxergo grandes gargalos de mobilidade urbana que podem ser resolvidos com um entendimento maior dos gestores dos municípios envolvidos.
O desafio é grande, mas o problema não pode mais ser deixado de lado pela sociedade e por aqueles que detém as condições necessárias para interferir positivamente no meio de transporte urbano em nossas cidades, pois esta cada vez mais difícil exercer o básico direito de ir e vir em nossa capital e em nossas grandes cidades.



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